Estar por baixo tem a sua beleza.

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Paulo LeemaPaulo Leema
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Estava sentado à mesa, com um copo de cerveja meio bebido à frente, e disse uma coisa simples. Sem cobrança, sem tom de professor, só uma verdade pequena que nem merecia discussão. A cara dele mudou, como quem sente um convite para uma guerra que ninguém tinha declarado. Falou, contra argumentou, foi buscar todos os ângulos possíveis para desmontar aquela frase de nada, não deixou ninguém completar um raciocínio, e quando finalmente sentiu que tinha sido ouvido, atirou com desdém, “sim, está bem, vai dar a isso que disseste”, como quem fecha a porta com força só para provar que a mão ainda lhe pertence.

Estar por baixo tem a sua beleza. Não é fingimento, é natureza. Cada um tem a sua essência, e naquele momento a dele estava toda à mostra, só que ele não sabia disso. E é aqui que as duas metades desta história se encontram: ele estava a revelar-se sem se conhecer, e eu só conseguia ver essa revelação porque, nalgum momento antes, tinha aprendido a conhecer-me a mim.

Dizem que o poder revela as pessoas. Talvez seja antes o ego que revela, e o poder só lhe empresta o palco. Mas repara bem nisto, porque é o centro de tudo: quem não se conhece, entrega-se sem perceber que se entrega, cada palavra atirada com força é uma máscara a cair pelas próprias mãos de quem a usa. E quem se conhece, ou pelo menos já fez esse trabalho de virar as próprias perguntas do avesso, vê essa queda antes de o outro sequer suspeitar que caiu. Não é vantagem que se procura, é vantagem que sobra de um trabalho feito para outro fim.

Por isso é que estar por baixo, consciente, pesa menos do que parece. Quanto mais tempo alguém acredita que controla, mais tempo fica, sem saber, do lado de fora do próprio controlo. E quem está por baixo, mas desperto, já passou pelas dúvidas todas, já questionou se calar era fraqueza, já refutou uma pergunta atrás da outra até sobrar só o essencial. É esse trabalho, feito primeiro para dentro, que depois se transforma sem esforço em capacidade de ler o autodesconhecimento alheio. Não se pode ver com clareza a máscara do outro sem primeiro ter tropeçado várias vezes na própria.

A essência de cada um é a sua essência, por mais que o mundo insista em moldar. Um tímido pode aprender a rir alto em qualquer festa, um conversador pode aprender a calar-se com os olhos vidrados fixos no nada, mas por baixo continua a mesma raiz, como o cheiro da terra depois da primeira chuva, que nenhuma seca apaga de vez. E quanto mais alguém se afasta de conhecer essa raiz em si mesmo, mais a expõe sem querer diante de quem já fez as pazes com a sua.

Talvez a pergunta nunca tenha sido sobre quem tem razão. Talvez fosse sempre sobre quem já fez o trabalho de se conhecer o suficiente para ver, sem julgar demais, o outro a desconhecer-se em voz alta.

E tu, da próxima vez que sentires vontade de ter a última palavra numa conversa pequena, já paraste para perguntar se estás a defender uma verdade, ou só a mostrar, sem saberes, tudo o que ainda não conheces de ti?