O Paradoxo do Espelho

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Quando foi a última vez que te lembraste, espontaneamente, de te teres visto ao espelho?

Não quando tentaste lembrar.

Quando essa memória simplesmente surgiu.

Pensa um pouco.

Todos nós já nos vimos ao espelho milhares de vezes. É uma experiência tão comum que provavelmente acontece quase todos os dias.

Lembramo-nos de pessoas, lugares, conversas e até de acontecimentos banais. No entanto, é difícil encontrar nas nossas lembranças aqueles momentos simples em que apenas parámos diante do espelho e vimos o nosso próprio rosto.

Onde estão essas memórias?

Vamos fazer um exercício.

Tenta lembrar-te agora de um momento específico em que te viste ao espelho.

Não imagines como costumas ficar diante dele.

Não penses apenas no teu rosto ou no espelho que usas todos os dias.

Procura uma memória.

Encontraste alguma?

Então observa-a.

De onde estás a vê-la?

Estás dentro dos teus próprios olhos, a olhar para o reflexo?

Ou consegues ver-te diante do espelho?

Se estás a recordar a partir dos teus próprios olhos, aquilo que tens diante de ti é o reflexo.

Mas, se consegues ver-te diante do espelho — talvez até de costas, enquanto o teu reflexo está à tua frente — surge um problema:

tu nunca viste essa cena.

Nunca estiveste atrás de ti próprio a observar-te diante do espelho.

No momento real, estavas atrás dos teus olhos.

Então de onde veio essa imagem?

Memória ou imaginação?

É aqui que o exercício se torna mais estranho.

Todos nós sabemos como é estar diante de um espelho. O cérebro conhece o nosso rosto, o espaço onde normalmente nos vemos e a posição que costumamos ocupar.

Tem, portanto, informação suficiente para reconstruir uma cena perfeitamente plausível.

Mas reconstruir uma cena não é necessariamente recuperar uma memória.

Lembrar é encontrar algo que reconhecemos como pertencente a uma experiência vivida.

Imaginar é construir uma representação possível dessa experiência.

E as duas coisas podem parecer muito semelhantes dentro da nossa cabeça.

Volta agora à memória que encontraste.

Tenta perceber se há realmente um momento específico ali ou se a tua mente está apenas a mostrar-te como sabes que esse momento deve ter acontecido.

Esta distinção leva-nos ao verdadeiro paradoxo.

O observador observado

Quando recordamos uma experiência, podemos regressar mentalmente à posição de quem a viveu.

Nós vimos alguma coisa.

E essa coisa estava diante de nós.

No espelho, porém, acontece algo peculiar:

aquilo que está diante de nós somos nós próprios.

Somos simultaneamente o observador e o observado.

Agora volta ao teu exercício.

Permanece dentro dos teus próprios olhos.

Vês o reflexo.

Mas tenta ver a ti próprio a olhar para esse reflexo.

Para conseguires fazer isso, tens de sair da posição onde realmente estavas.

Passas a observar-te de fora.

E então surge uma configuração impossível na experiência original:

um observador a observar um observado que também está a observar.

Tu observas-te diante do espelho.

Esse “tu” observa o reflexo.

E o reflexo olha de volta.

É como se, ao tentarmos encontrar-nos dentro da própria memória, tivéssemos de sair do lugar onde essa memória aconteceu.

Para recordar, precisamos voltar a ser quem olhava.

Para nos vermos a olhar, precisamos deixar de ser quem olhava.

E talvez seja aqui que a sensação de conflito se torna mais evidente.

Não estamos apenas a pedir ao cérebro que se lembre daquilo que viu.

Estamos a pedir-lhe que se lembre de si próprio a observar-se.

Mas onde estavam essas memórias?

Há ainda uma questão anterior a todo este exercício.

Nós só começámos a procurar estas memórias porque fizemos uma pergunta que normalmente não fazemos.

Antes disso, elas simplesmente não pareciam necessárias.

Podemos recordar um determinado dia, uma pessoa que encontrámos, o lugar onde estivemos e algo que aconteceu. É bastante provável que, nesse mesmo dia, também nos tenhamos visto ao espelho.

Mas essa parte raramente surge espontaneamente na lembrança.

E quando finalmente tentamos recuperá-la, encontramos outro problema: temos informação suficiente para imaginá-la.

Por isso, torna-se difícil saber se recuperámos algo que estava realmente guardado ou se acabámos de construir uma imagem para preencher aquilo que procurávamos.

Não significa que o cérebro apague memórias de espelhos ou que se recuse literalmente a analisar-se.

Mas a experiência provoca uma sensação curiosa:

é como se o cérebro não precisasse de se recordar de se ter visto — até ao momento em que o obrigamos a procurar essa lembrança.

E, quando o fazemos, observador e observado começam a trocar de lugar.

Agora faz o exercício uma última vez.

Escolhe um momento em que sabes que te viste ao espelho.

Não completes aquilo que falta.

Não construas a cena.

Espera apenas pelo que realmente consegues recuperar.

E pergunta:

Estou mesmo a lembrar-me de me ter visto ao espelho…

ou estou apenas a imaginar-me a fazê-lo?