As peças da vida.

2 min de leitura

Paulo LeemaPaulo Leema
210

Ninguém chega ao mundo com o puzzle montado.

És atirado ao mundo.

E, a partir daí, o mundo começa a atirar-te coisas.

Pessoas. Lugares. Escolhas. Erros. Oportunidades. Perdas. Amores. Despedidas. Acasos. Coisas que pediste e coisas que nunca escolherias viver.

Cada uma chega como uma peça.

O problema é que as peças não vêm com instruções.

Algumas encaixam imediatamente. Olhas para elas e percebes o lugar que ocupam na tua vida.

Outras parecem não pertencer a lado nenhum.

Guardas uma amizade que terminou mal.
Uma oportunidade que perdeste.
Uma decisão de que te arrependes.
Uma pessoa que apareceu no momento errado.
Uma experiência que, durante anos, pareceu não ter servido para absolutamente nada.

E talvez seja aí que esteja uma das coisas mais difíceis de compreender sobre viver:

recebemos as peças antes de conhecermos a imagem.

Tentamos perceber o sentido das coisas enquanto ainda estamos dentro delas.

Queremos saber porquê agora.
Queremos saber para quê agora.
Queremos que tudo faça sentido agora.

Mas um puzzle não se compreende olhando para uma peça isolada.

É preciso distância.

É preciso tempo.

Às vezes, aquilo que parecia um erro torna-se exatamente a experiência que te prepara para uma oportunidade futura.

Uma despedida muda a forma como amas.

Um fracasso muda a forma como escolhes.

Uma pessoa que não ficou deixa alguma coisa que permanece.

E uma peça que juravas não pertencer à tua história, anos depois, encaixa.

Talvez crescer seja precisamente isso:

não conseguir controlar as peças que o mundo te atira, mas aprender a organizá-las dentro de ti.

Dar-lhes lugar.
Dar-lhes significado.
E perceber que significado não é algo que as coisas trazem necessariamente consigo.

Muitas vezes, és tu quem o constrói.

No final, talvez a vida não seja descobrir qual é a imagem do puzzle.

Talvez seja olhar para todas aquelas peças aparentemente desconexas e, pouco a pouco, perceber:

a imagem era eu.